A autonomia das autoridades monetárias voltou ao centro do debate internacional. De Brasília a Washington, presidentes eleitos utilizam declarações públicas e movimentações de bastidor para tentar forçar cortes na taxa básica de juros, desafiando o desenho institucional que protege os bancos centrais de interferência política direta.
Brasil: embate entre Lula e o Banco Central
No Brasil, o conflito começou em 2021, quando o Congresso aprovou a Lei Complementar que garantiu mandatos fixos e independência operacional aos diretores do Banco Central. Na época, o Partido dos Trabalhadores votou contra a proposta e, posteriormente, recorreu ao Supremo Tribunal Federal para tentar anular a norma. Com a derrota na Corte, a diretoria escolhida em 2019 ficou blindada até o fim do mandato.
Eleito para o Palácio do Planalto em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva herdou uma Selic na faixa de dois dígitos e um presidente do Banco Central indicado pelo governo anterior. Roberto Campos Neto passou a ser alvo frequente de críticas públicas por parte do chefe do Executivo, que responsabiliza a política monetária pelo ritmo lento da atividade econômica. Mesmo após a posse de novos diretores nomeados pelo governo atual — incluindo Gabriel Galípolo, alçado à presidência da instituição — o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve o ciclo de aperto, justificando a decisão pelo aumento do risco fiscal derivado de despesas federais em expansão.
Até o momento, o Planalto não dispõe de meios legais para trocar os dirigentes que ainda têm mandato. O corpo técnico do Banco Central segue respaldado pela lei de autonomia, que exige motivo grave e comprovado para destituição. A cada reunião do Copom, no entanto, a retórica presidencial reaparece, sugerindo que a pressão política permanece viva.
Estados Unidos: Trump mira o Federal Reserve
Nos Estados Unidos, a tensão ganhou contornos semelhantes. Desde o fim de 2024, os juros básicos do Federal Reserve (Fed) estão entre 4,25% e 4,5% ao ano, patamar considerado elevado para padrões norte-americanos. O índice foi ajustado principalmente em 2022 e 2023, resposta clássica ao repique inflacionário pós-pandemia.
Reeleito, Donald Trump intensificou as críticas ao presidente do Fed, Jerome Powell, nomeado originalmente por ele em 2018. Pelas redes sociais, o mandatário acusa o banco central de segurar a economia e insinua motivação política quando o Federal Open Market Committee (Fomc) decide manter os juros. A situação escalou em agosto de 2025, quando a Casa Branca demitiu Lisa Cook, integrante do Board of Governors, sob alegação de fraude hipotecária. Cook promete recorrer à Justiça e pode se sustentar no argumento de mandato fixo, que teoricamente só pode ser interrompido em caso de infração grave comprovada.
Até agora, não há processo judicial concluído contra Cook. A demissão preventiva serviu, contudo, como sinal de que a administração está disposta a tensionar os limites legais para influenciar a trajetória da taxa básica. Mesmo assim, Powell continua no cargo; seu mandato termina em maio de 2026, e só poderia ser encerrado antes do prazo se o presidente apontar causa justificada, cenário suscetível a questionamento judicial.
Mandatos fixos e credibilidade
Os bancos centrais se baseiam em dois pilares: metas de inflação e independência operacional. Ao receberem mandatos fixos, os diretores têm assegurada a liberdade para subir ou reduzir juros conforme indicadores técnicos — inflação corrente, expectativas futuras, balanço fiscal e quadro externo — sem precisar ajustar decisões a interesses eleitorais de curto prazo. Quando essa blindagem é ameaçada, a credibilidade da política monetária tende a sofrer, pois agentes de mercado passam a precificar risco inflacionário maior.


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Imagem: Sebastião Moreira
Muitos países adotam legislações semelhantes. No Reino Unido, o Bank of England responde ao Parlamento, não à chefia do governo. No Japão, o Banco do Japão (BoJ) possui estatuto que prevê demissão apenas em caso de violação séria de lei. Na Zona do Euro, o Tratado de Maastricht proíbe explicitamente instruções governamentais ao Banco Central Europeu.
Consequências para dívida e investimento
Juros altos tornam a rolagem da dívida pública mais onerosa, sobretudo quando parcela significativa está indexada à taxa básica. Também encarecem o crédito para empresas e famílias, afetando o ritmo de investimento e consumo. Essas são as razões que motivam presidentes a insistir em cortes rápidos. Ao mesmo tempo, uma redução artificial e sem lastro em fundamentos macroeconômicos costuma provocar efeito oposto: desancoragem das expectativas, fuga de capitais e pressão cambial, fatores capazes de elevar ainda mais a inflação.
Enquanto Lula e Trump verbalizam insatisfação, as respectivas diretorias de Banco Central e Federal Reserve reforçam a necessidade de decisão técnica. No Brasil, o Copom atribui a persistência da Selic elevada à expansão fiscal. Nos Estados Unidos, o Fomc observa um mercado de trabalho ainda aquecido e inflação de serviços resistente.
No curto prazo, a autonomia legal permanece intacta. Porém, o precedente de ataques verbais, ameaças de demissão e tentativas de revisão legislativa indica que a independência das autoridades monetárias continuará sob escrutínio em futuras administrações.
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Em resumo, a ofensiva de chefes de Estado sobre bancos centrais revela um dilema recorrente: conciliar controle inflacionário com impulso ao crescimento sem comprometer a credibilidade monetária. Continue acompanhando nossos conteúdos e compartilhe este artigo para ampliar o debate sobre o papel das instituições na estabilidade econômica.

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