Brasília, 29 ago. 2025 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu usar o grupo Brics como vitrine para atacar o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, enquanto intensifica contatos diplomáticos com Washington para preservar o fluxo comercial que garante 12% da balança brasileira. A estratégia mescla discurso de soberania voltado ao eleitorado interno e movimento pragmático para evitar perdas econômicas irreparáveis.
Consulta à Lei de Reciprocidade: gesto político contra Trump
Na quinta-feira (28), o Itamaraty foi autorizado a abrir consulta formal para aplicar a Lei de Reciprocidade contra as novas tarifas norte-americanas. A medida, de tramitação lenta, representa o ato público mais incisivo do governo contra a administração Donald Trump. Nos bastidores, porém, diplomatas procuram retomar canais de diálogo bloqueados desde o anúncio das sobretaxas.
Três frentes concentram o esforço: o chanceler Mauro Vieira dialoga com o Departamento de Estado; o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tenta agenda com o Tesouro; e o vice-presidente Geraldo Alckmin busca articulação com o setor privado norte-americano. Até agora, os resultados foram escassos. Reunião entre Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio não evitou a entrada em vigor das tarifas, Haddad teve encontro cancelado com o secretário do Tesouro Scott Bessent, e Alckmin obteve apenas conversa de 50 minutos com o secretário de Comércio Howard Lutnick, sem efeito concreto.
Lobby contratado e aproximação forçada ao Brics
Diante do impasse, a Advocacia-Geral da União contratou escritório de advocacia nos EUA para atuar como lobby em favor de empresas brasileiras afetadas. Paralelamente, Lula intensificou a retórica pró-Brics, apresentando o bloco como alternativa à dependência do dólar e defendendo moeda comum para transações internacionais – proposta que agrada Pequim e provoca Washington.
Logo após a vigência das tarifas, Lula telefonou ao presidente chinês Xi Jinping e discutiu cooperação em saúde, petróleo, economia digital e satélites. A iniciativa foi vista por analistas como resposta imediata à pressão de Trump e tentativa de sinalizar opção de mercado fora da órbita norte-americana.
Limites econômicos da guinada
A retórica, contudo, esbarra em dados. Os EUA absorvem produtos brasileiros de maior valor agregado, como aço, alumínio, equipamentos elétricos e aeronaves da Embraer – itens sem mercado relevante na China, que concentra 90% das compras em commodities agrícolas e minerais. Pequim, além disso, compete diretamente com a indústria brasileira em aço e eletrônicos, dificultando substituição de receita.
Vinícius Rodrigues, professor de Relações Internacionais da FAAP e da FGV-SP, observa que o discurso de soberania “visa consumo interno”, mas não supre, no curto prazo, o vazio deixado pelas vendas ao mercado norte-americano. Para a pesquisadora Lia Valls, do FGV Ibre, diversificar destinos segue sendo caminho necessário, porém incapaz de dispensar as exportações aos EUA.
México, Europa e Ásia na rota de compensação
Com o espaço limitado na China, o Planalto tenta ampliar acordos com outros parceiros. O governo finalizou tratado com a European Free Trade Association, internaliza pacto com Singapura e mantém negociações com União Europeia, Coreia do Sul e Japão. Nesta semana, Alckmin e a ministra Simone Tebet visitaram o México, segundo maior comprador de carne bovina brasileira desde o tarifaço. Embora a presidente Claudia Sheinbaum tenha descartado acordo de livre comércio nos moldes do que o país mantém com os EUA, ambos os governos prometeram ampliar colaboração setorial.


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Imagem: Juan Ignacio Rcori
Contradição entre discurso e prática
Aos olhos de analistas, a postura do presidente combina oportunismo eleitoral e cálculo econômico. Enquanto discursa contra o “imperialismo” para fortalecer base política, mantém alinhamento operacional com agendas norte-americanas, inclusive em defesa, e evita aderir à Iniciativa Cinturão e Rota chinesa. O próprio Itamaraty resiste a transformar o Brics em plataforma anti-ocidental.
Internamente, o governo também enfrenta pressão de setores que dependem do mercado dos EUA. Fabricantes de aço, alumínio, motores elétricos e aviação comercial destacam que o Brics não absorve produtos de maior complexidade tecnológica. Fagner Santos, da JF Comex Consultoria, vê oportunidades na China para café, sucos, açaí, calçados e cosméticos premium, mas reconhece barreiras regulatórias rígidas e competição intensa.
Perspectivas
Sem recuo imediato de Washington e com substituição limitada no Brics, o governo aposta no multilateralismo clássico: manter canais com grandes economias, reforçar a OMC e diversificar acordos regionais. A estratégia, contudo, depende de resultado concreto nas conversas com os EUA, único mercado capaz de absorver manufaturados brasileiros em escala e com valor agregado significativo.
Se o lobby contratado em solo americano falhar, o Planalto terá de gerir os impactos internos do tarifaço em plena pré-campanha municipal de 2026, contexto que explica a ênfase de Lula no discurso de soberania nacional.
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Resumo: Lula combina críticas públicas às tarifas de Trump com busca de diálogo nos bastidores, intensifica laços com o Brics, mas esbarra na dependência do mercado norte-americano para manufaturados. A tensão entre discurso político e pragmatismo comercial continuará a nortear a diplomacia brasileira. Fique atento e compartilhe este conteúdo com quem se interessa por economia e relações internacionais.

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