Brasília – A aproximação do governo Lula com Rússia e China abriu uma crise silenciosa nas relações com os Estados Unidos e colocou em xeque compras essenciais para as Forças Armadas. Entre os contratos em risco estão 12 helicópteros UH-60M Black Hawk e mais de 200 mísseis antitanque Javelin, equipamentos considerados fundamentais para operações na Amazônia e defesa de fronteiras.
Helicópteros Black Hawk e mísseis Javelin sob incerteza
Os Black Hawk, avaliados em US$ 451 milhões, e os Javelin, estimados em US$ 74 milhões, tiveram autorização inicial durante a gestão Bolsonaro, quando Washington classificou o Brasil como aliado extra-Otan. A negociação continua aberta e depende da boa vontade da Casa Branca para liberar entregas, peças de reposição e suporte logístico.
Analistas consultados por oficiais do Exército apontam que a tensão diplomática intensificada pela proximidade de Lula com Moscou e Pequim pode levar a atrasos, bloqueios ou até suspensão do fornecimento. O sistema Foreign Military Sales (FMS) — usado pelos EUA para exportar material bélico — permite revisões políticas a qualquer momento, sobretudo quando o comprador se alinha a potências rivais.
Os Black Hawk são vitais para missões de patrulha e resgate na selva, onde helicópteros mais antigos apresentam menor autonomia e segurança. Já os Javelin, amplamente empregados na guerra da Ucrânia em 2022, reforçariam a capacidade antiblindado brasileira na fronteira com a Venezuela.
Programas com França e Suécia também podem ser afetados
O impacto do reposicionamento diplomático vai além das compras nos EUA. Estratégias de longo prazo, como o Programa de Submarinos (Prosub) em parceria com a França e a produção dos caças Gripen com tecnologia sueca, estão sob análise de governos e fornecedores.
O tratado com Paris prevê a construção de quatro submarinos convencionais (três já entregues) e um nuclear, com transferência parcial de tecnologia. Especialistas em defesa alertam que o contato próximo de Brasília com o Kremlin levanta dúvidas em países da Otan sobre possível vazamento de informações sensíveis, o que poderia comprometer acordos de manutenção e fornecimento de peças — entre elas os torpedos fabricados exclusivamente na França.


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Situação semelhante ocorre com o projeto Gripen. A Força Aérea Brasileira (FAB) recebeu oito das 36 aeronaves, mas ainda não obteve acesso pleno ao software de combate. Desde que a Suécia ingressou na Otan, autoridades de Estocolmo monitoram a política externa brasileira para avaliar riscos de exposição tecnológica a parceiros de Moscou. Entraves nesse campo podem retardar entregas ou limitar futuras expansões do programa, hoje orçado em mais de R$ 26 bilhões.
Indústria nacional exposta a pressões externas
O reposicionamento geopolítico influencia a cadeia produtiva doméstica. O cargueiro Embraer KC-390, exportado a diversos países, possui componentes norte-americanos que podem sofrer embargo caso o clima político piore. A mesma vulnerabilidade atinge a Avibras, fabricante de sistemas de artilharia, cortejada pela estatal chinesa Norinco depois que um grupo australiano desistiu de adquiri-la.

Militares consultados sob reserva enxergam a investida de empresas russas e chinesas como parte de uma estratégia de longo prazo desses governos para ampliar influência no Cone Sul. O receio é que, ao aceitar capital ou tecnologia de regimes adversários do Ocidente, o Brasil perca acesso a fontes tradicionais de suprimento e sofistique a dependência de fornecedores politicamente condicionados.
Senado cobra explicações da Defesa
Diante das incertezas, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, foi convocado para audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado. O pedido, liderado pelo senador Hamilton Mourão, solicita esclarecimentos sobre as aquisições em andamento e sobre as salvaguardas adotadas para proteger programas estratégicos em meio ao cenário de crescente polarização global.
Também foram convidados os comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica. Parlamentares querem detalhar como o Planalto pretende conciliar o discurso de aproximação com os Brics — agora ampliado para incluir Arábia Saudita, Emirados Árabes, Egito, Etiópia, Indonésia e Irã — com os compromissos técnicos firmados com parceiros ocidentais.
Riscos para credibilidade e operacionalidade
Especialistas em segurança advertem que a confiança é ativo decisivo em contratos de Defesa. A percepção de ambiguidade estratégica pode resultar na reavaliação de prazos, valores e até cancelamento de entregas. Além disso, fornecedores estrangeiros detêm direito de veto à revenda ou transferência de tecnologia, o que limita a liberdade do Brasil caso busque diversificar alianças.
No campo operacional, uma ruptura com Washington afetaria o abastecimento de peças, munições e sistemas de navegação utilizados em plataformas já em serviço, como helicópteros Black Hawk mais antigos e aeronaves de transporte C-130. Sem suporte regular, a disponibilidade da frota diminuiria, ampliando custos de manutenção e reduzindo a prontidão militar.
Embora o Alto Comando reconheça o clima de cautela, fontes ouvidas avaliam que acordos com nações ocidentais ainda podem ser preservados se o governo sinalizar compromisso claro com padrões de confidencialidade e interoperabilidade alinhados à Otan. Caso contrário, contratos assinados nas últimas décadas correm o risco de revisão, adiamento ou bloqueio — cenário que ampliaria a dependência de fornecedores externos menos compatíveis com a doutrina brasileira.


