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Empresas brasileiras redirecionam produção para conter tarifaço dos EUA

Política

A elevação súbita das tarifas norte-americanas, que multiplicou por trinta a alíquota média aplicada a bens de origem brasileira, forçou companhias nacionais a repensar rotas de exportação e cadeias produtivas. Embora cerca de 700 mercadorias tenham escapado da sobretaxa de 50%, o imposto médio salta de 1,3% em 2024 para 30,9% em 2025, segundo o BTG Pactual. O agronegócio, a indústria de base e o setor de papel e celulose lideram o esforço de adaptação.

Redistribuição regional evidencia focos de perda

Estudo do Núcleo de Estudos em Modelagem Econômica e Ambiental Aplicada da UFMG aponta que São Paulo concentra a maior perda estimada, de R$ 11,3 bilhões. Em seguida aparecem Rio Grande do Sul (R$ 4 bilhões), Rio de Janeiro (R$ 3,2 bilhões), Minas Gerais (R$ 1,6 bilhão), Bahia (R$ 1,4 bilhão) e Paraná (R$ 1 bilhão). A XP Investimentos calcula que o impacto sobre o Produto Interno Bruto reduz o crescimento em 0,15 ponto percentual neste ano, efeito relevante para estados com forte presença exportadora.

Agronegócio desloca carga para Ásia e Oriente Médio

No ramo de proteína bovina, a tarifa total de 74% praticamente impede novos embarques aos Estados Unidos. JBS, Marfrig e Minerva deslocam volumes para China, Filipinas, Indonésia e países do Oriente Médio. A JBS, com plataforma global, não projeta impacto material no resultado consolidado; a participação norte-americana em sua receita é diluída por plantas em cinco continentes. A Marfrig, cuja exposição aos EUA era de apenas 2% nas operações sul-americanas, intensifica remessas a unidades no Uruguai e na Argentina. Já a Minerva utiliza fábricas aprovadas em Paraguai e Uruguai, preservando margens.

No segmento sucroalcooleiro, a Jalles Machado estima perda de R$ 20 a 25 milhões no fluxo de caixa devido à queda de competitividade do açúcar orgânico. A resposta imediata é direcionar parte do volume para o mercado interno como açúcar cristal, produto de menor valor agregado. São Martinho segue caminho semelhante e reforça a produção de etanol para consumo doméstico, enquanto a Cosan declara efeito “não material”, dada sua baixa dependência do cliente norte-americano.

Papel e celulose mitigam custo com repasse ao comprador

A Suzano manteve a celulose fora da sobretaxa, mas alguns papéis foram incluídos. Para conter perdas, a empresa formou estoques em território norte-americano e redireciona exportações de papel a outras regiões. Além disso, negociou com clientes dos EUA o pagamento da tarifa de 10% sobre celulose, preservando margem. A Klabin, com forte presença na América Latina, relata maior resiliência e segue diversificando destinos.

Indústria transfere produção e aproveita exceções estratégicas

Isenta da alíquota adicional de 40% para aeronaves completas e componentes, a Embraer prevê custo extra inferior a 10% por avião. O impacto líquido projetado para 2025 é de US$ 65 milhões, valor já embutido nas projeções financeiras. A companhia negocia com Brasília e Washington o retorno ao histórico regime de tarifa zero, sustentada pela criação de 13 mil empregos nos EUA e perspectiva de superávit de US$ 8 bilhões para os americanos até 2030.

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Na metalurgia, a Tupy, cujo faturamento depende 14% das exportações brasileiras aos EUA, transfere parte da produção para fábricas mexicanas, beneficiando-se das regras do acordo USMCA. A WEG adota lógica parecida: utiliza capacidade no México e na Índia para suprir o mercado americano, enquanto o Brasil cobre a demanda local de ambos os países. Já a Gerdau, afetada indiretamente pela queda de pedidos de clientes brasileiros que exportam máquinas para os EUA, anuncia corte de investimento doméstico e demissão de 1,5 mil funcionários diante da “competição predatória” de importados.

Efeitos macroeconômicos permanecem monitorados

Os cálculos do Nema/UFMG sinalizam retração adicional de até 0,26 ponto percentual do PIB, a depender de retaliações de terceiros países ou de eventual escalonamento da disputa comercial. Apesar de a lista de exceções atenuar danos em setores estratégicos para os EUA — como petróleo, suco de laranja e aviação —, a pressão sobre o fluxo de capital gerou saída imediata de recursos e revisões de portfólio por investidores estrangeiros. Ainda assim, a reação rápida das empresas, baseada em diversificação geográfica e acordos diretos com compradores, limita o alcance de eventuais efeitos em cadeia.

Diante de um cenário de protecionismo crescente, a principal estratégia corporativa é combinar deslocamento de produção, renegociação de contratos e foco no mercado interno. O movimento reforça a importância de cadeias produtivas flexíveis, reduz dependência de um único destino e demonstra capacidade do setor privado de enfrentar choques externos.

Para acompanhar outras movimentações que impactam diretamente o ambiente de negócios brasileiro, vale conferir as análises já publicadas em Política.

Em resumo, empresas nacionais ajustam rotas, transferem linhas de montagem e renegociam contratos para preservar competitividade diante do tarifaço norte-americano. Continue acompanhando nossos conteúdos e fique informado sobre as próximas medidas que podem influenciar investimentos e empregos no país.

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