A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado aprovou, nesta terça-feira (14), a criação do Grupo Parlamentar Brasil-Rússia, voltado a intensificar a diplomacia legislativa entre os dois países. A decisão foi tomada por aclamação, recebendo votos contrários apenas dos senadores Hamilton Mourão (Republicanos-RS) e Tereza Cristina (PP-MS).
O que motivou a iniciativa
O relatório, de autoria do senador Sérgio Petecão (PSD-AC), cita “encontros relevantes” mantidos por parlamentares brasileiros com líderes da Duma e do Conselho da Federação, entre eles Vyacheslav Volodin e Valentina Matviyenko. Ambos figuram na lista de sancionados pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos Estados Unidos, além de Austrália, Bélgica, Nova Zelândia e Reino Unido, por apoio direto à invasão da Ucrânia.
A senadora Dra. Eudócia (PL-AL) propôs a criação do colegiado, mas não participou da votação. Em sua justificativa, Petecão argumentou que o intercâmbio serve para “aprimorar o comércio bilateral” e manter diálogo com um parceiro relevante em fertilizantes, combustíveis e tecnologia. O Brasil se tornou, em 2024, o segundo maior comprador de diesel russo, somando cerca de R$ 38 bilhões, segundo o Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA).
Votos contrários e críticas à guerra
Hamilton Mourão destacou duas razões para se opor: a agressão militar russa contra a Ucrânia, “que fere princípios constitucionais brasileiros de não intervenção”, e a falta de democracia plena no Parlamento russo. O general da reserva tem alertado para o risco de novos conflitos globais enquanto as Forças Armadas nacionais enfrentam escassez de recursos.
Tereza Cristina, que presidiu a sessão, classificou a guerra como “sem sentido” e igualmente rejeitou o grupo. Apesar de votar favoravelmente, o senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) registrou discordância sobre a importação de óleo diesel russo, lembrando sua experiência em missão espacial realizada em veículo russo antes da carreira política.
Composição e objetivos do grupo
Com a aprovação, o colegiado terá verba pública para organizar estudos, seminários e missões oficiais. Embora sem poder formal sobre a política externa — competência do Executivo —, grupos parlamentares podem influenciar debates e facilitar acordos comerciais ou culturais.


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Entre os 18 senadores que apoiaram a proposta estão nomes do PL, PT, MDB, PSD, União Brasil e Republicanos. Constam na lista, por exemplo, Beto Faro (PT-PA), Efraim Filho (União-PB), Esperidião Amin (PP-SC), Fabiano Contarato (PT-ES) e Wellington Fagundes (PL-MT). A diversidade partidária indica convergência pontual em torno de interesses econômicos, sobretudo no agronegócio, que depende de fertilizantes russos.
Contexto de propaganda russa no país
A criação do grupo ocorre em meio a investida de Moscou para ampliar influência política no Brasil. No plano institucional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a Rússia nas celebrações dos 80 anos do fim da Segunda Guerra e recebeu o chanceler Serguei Lavrov em Brasília em ao menos duas ocasiões. Paralelamente, deputados e senadores brasileiros participaram da fundação do Fórum de Valores Tradicionais dos BRICS, iniciativa patrocinada pela Fundação Humanitária Internacional Zakhar Prilepin, ligada ao partido Rússia Justa — Pela Verdade, da base de Vladimir Putin.
Durante a segunda edição do fórum, realizada em setembro na Câmara, o deputado russo Dmitry Kuznetsov tentou relativizar denúncias sobre o sequestro de mais de 19 mil crianças ucranianas. Pesquisas da Universidade de Yale apontam que menores foram enviados para campos de “reeducação” e adoção dentro da Rússia, fato que embasou o mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional contra Putin.

Imagem: Edils Rodrigues
Justificativas econômicas e diplomáticas
Defensores do grupo argumentam que manter canais com Moscou garante estabilidade no fornecimento de fertilizantes, fundamental para a safra brasileira, além de abrir espaço a acordos em áreas como tecnologia espacial, defesa e energia. Petecão ressaltou que “virar as costas para a Rússia” seria contraproducente diante da relevância comercial, mesmo reconhecendo o “procedimento desigual” da guerra.
Por outro lado, críticos afirmam que a iniciativa pode legitimar um Parlamento acusado de respaldar crimes de guerra e contrariar alinhamentos históricos do Brasil com princípios de autodeterminação dos povos. Mourão enfatizou que relações externas devem obedecer à Constituição e aos tratados internacionais dos quais o país é signatário.
Próximos passos
Após a aprovação na comissão, a Mesa Diretora do Senado deve formalizar a instalação do Grupo Parlamentar Brasil-Rússia. Caberá aos membros eleger presidente, vice-presidente e secretários, além de definir agenda de viagens, encontros bilaterais e temas de estudos. Não há prazo legal para a conclusão desse processo, mas a expectativa é que os trabalhos comecem ainda neste semestre.
O movimento reforça o debate sobre até que ponto laços econômicos justificam a aproximação com regimes sancionados pelo Ocidente. No Senado, a divisão ficou clara, embora minoritária, entre os que priorizam princípios democráticos e os que enxergam vantagem estratégica em manter interlocução direta com Moscou.
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Em resumo, o Senado deu sinal verde a um novo canal de diálogo com a Rússia, mesmo diante de sanções internacionais a figuras-chave do Kremlin. Resta saber se a aposta em ganhos comerciais compensará o desgaste diplomático com parceiros tradicionais. Continue acompanhando nossos conteúdos e compartilhe sua opinião.
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