Lançado em 1975 pela gravadora Odeon, o álbum “Claridade” chega aos 50 anos mantendo o seu lugar entre os discos mais influentes da história do samba. Com capa dupla e forte investimento promocional, o projeto confirmou Clara Nunes como a principal intérprete feminina do gênero na década de 1970 e impulsionou vendas em todo o país.
Produção marcada por uma fase de transição
O disco foi gravado num momento de mudanças pessoais e profissionais para a artista. Após o sucesso de “Alvorecer” em 1974, Clara encerrou a parceria amorosa e musical com o produtor e radialista Adelzon Alves, responsável por direcioná-la definitivamente ao samba a partir de 1971. Já envolvida com o compositor Paulo César Pinheiro, com quem se casaria em julho de 1975, a cantora viu a Odeon convidar Pinheiro para assumir a produção do novo trabalho. Ele recusou, limitando-se a participar como compositor em duas faixas.
Diante da ausência de Adelzon e da recusa de Pinheiro, a gravadora escalou o violonista Hélio Delmiro como produtor musical, acompanhado de Renato Corrêa na direção. Mesmo fora do estúdio, Adelzon influenciou o repertório, especialmente na seleção de sambas ligados à escola Portela, círculo que havia apresentado à artista.
Repertório reúne sucessos que dominaram o rádio
O lado A do LP concentrou os grandes êxitos. Logo na abertura, “O mar serenou” (Candeia) exaltou a figura feminina em ritmo contagiante e ganhou alta rotação nas emissoras. Na sequência, “A deusa dos orixás” — assinada por Romildo Bastos e Toninho Nascimento, dupla de “Conto de areia” — reforçou o diálogo de Clara com as religiões de matriz africana, marca constante em sua discografia.
Outras faixas de destaque incluem “Juízo Final” (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), leitura luminosa para um samba de tom esperançoso, e “Sofrimento de quem ama” (Alberto Lonato), resgate de pérola lançada nos anos 1940. Ainda no primeiro lado, “O último bloco” (Candeia) evidencia o peso carnavalesco presente na obra.
No lado B, a cantora alternou ineditismos e regravações. “Valsa do Realejo” (Paulo César Pinheiro e Guinga) traz clima melancólico, enquanto “Bafo de Boca” (Pinheiro e João Nogueira) aposta no partido-alto. Há espaço também para a lírica “Que sejas bem feliz” (Cartola), “Tudo é Ilusão” (Aníbal da Silva, Eden Silva, Tufic Lauar) e “Vai Amor” (Monarco e Walter Rosa), além do samba-canção “Às vezes faz bem chorar” (Ivor Lancellotti) adornado por arranjos de cordas.


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Imagem: Mauro Ferreira via g1.globo.com
Impacto comercial e legado cultural
“Claridade” consolidou a posição de Clara Nunes como recordista de vendas da Odeon e reforçou a presença feminina no universo do samba, então dominado por homens. O sucesso nacional do LP deu continuidade à trajetória iniciada com “Conto de areia” e abriu caminho para discos igualmente celebrados, como “Canto das Três Raças” (1976), já produzido por Pinheiro.
O repertório versátil e a interpretação vigorosa transformaram diversas faixas em clássicos permanentes do cancioneiro popular brasileiro. À época, a combinação de temática afro-religiosa, referências carnavalescas e resgate de sambas históricos ampliou o público da artista e fortaleceu a narrativa do samba como expressão de identidade cultural.
Relançamento mantém obra acessível às novas gerações
Em 2023, a Odeon relançou o álbum no formato original de vinil, iniciativa que recolocou a obra nas lojas especializadas e plataformas de streaming. A nova prensagem replicou a arte gráfica da edição de 1975, incluindo a fotografia de contracapa assinada por Sérgio Matulevicius, elemento icônico da imagem da cantora.
Com meio século de existência, “Claridade” segue como testemunho da força de Clara Nunes e do samba brasileiro. O disco permanece referência obrigatória para pesquisadores, músicos e admiradores, mantendo viva a voz que, nos anos 1970, iluminou pistas de baile, rodas de samba e as ondas do rádio em todo o território nacional.

