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Brasil coloca terras raras em jogo e acende alerta nos EUA

Econômia

Quem controla o processamento de terras raras define os rumos da transição energética, da indústria de defesa e da economia digital. O Brasil, dono da segunda maior reserva global, passou a ocupar posição decisiva na disputa estratégica entre China e Estados Unidos. Sem uma política industrial robusta, o país pode repetir o velho modelo de exportar matéria-prima bruta, enquanto Pequim avança para dominar a extração em solo brasileiro e Washington pressiona por cadeias de suprimento “amigas”.

Corrida mundial acelera demanda por minerais críticos

A Agência Internacional de Energia projeta que a procura por terras raras suba até sete vezes até 2040, impulsionada por turbinas eólicas, veículos elétricos e armamentos guiados. Atualmente, empresas chinesas respondem por cerca de 60 % da extração e quase 90 % do refino. Esse predomínio permite a Pequim restringir exportações sempre que interesses geopolíticos estão em jogo, como já ocorreu com sete minerais essenciais aos EUA.

Com reservas de alta qualidade em Minas Gerais – inclusive em argilas iônicas de baixo custo operacional e menor impacto ambiental – o Brasil surge como fornecedor natural para diversificar cadeias internacionais. Os depósitos brasileiros podem operar sem grandes barragens de rejeito e, em alguns projetos, o custo de produção cai para cerca de US$ 8,8 por quilo de óxido de terras raras, conferindo competitividade superior às minas em rocha dura.

Avanço chinês no Brasil e reação americana

Dados do Conselho Empresarial Brasil-China indicam que o investimento de Pequim por aqui cresceu 113 % em 2024 e alcançou US$ 4,18 bilhões, focado em setores considerados críticos: energia, petróleo, logística portuária e minerais estratégicos. Na mineração, capital chinês já controla ativos de nióbio, tântalo, estanho, lítio e níquel, além de garantir rotas de escoamento por terminais portuários recentemente arrematados.

Essa presença incomoda Washington. A estratégia de friendshoring – ampliar parcerias com democracias consideradas confiáveis – coloca o Brasil no radar direto da Casa Branca. Senator Tom Cotton requisitou investigação sobre a expansão chinesa no agronegócio brasileiro, e lideranças empresariais dos EUA defendem acordos para garantir fornecimento estável de terras raras. Nas negociações comerciais entre os presidentes brasileiro e norte-americano, os minerais críticos já aparecem como moeda de troca para redução de tarifas.

Industrialização é gargalo que ameaça soberania

Hoje o país não possui plantas de separação química, etapa que multiplica o valor do produto. O concentrado misto exportado pode valer cerca de US$ 10 por quilo, enquanto os óxidos separados chegam a US$ 200 e os ímãs permanentes ultrapassam milhares de dólares. Sem domínio tecnológico nessa fase, o Brasil permanece na posição de mero fornecedor de baixo valor agregado.

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Projetos privados iniciam reação. A australiana Viridis firmou parceria para instalar a primeira fábrica de óxidos de terras raras na América do Sul, enquanto o empreendimento Magbras pretende produzir ímãs de alta performance em Minas Gerais. O governo sinalizou apoio financeiro de R$ 5 bilhões por meio do BNDES e da Finep, mas a iniciativa privada estima demanda real de R$ 85 bilhões, expondo diferença entre necessidade e oferta de crédito.

Política Nacional de Minerais Críticos avança no Congresso

O Projeto de Lei 2780/2024 cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) para coordenar ações de licenciamento, incentivos fiscais e desenvolvimento de tecnologia. A proposta prevê comissão especial na Câmara e participação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Empresários defendem modernização do licenciamento ambiental, que pode levar até 16 anos, e aumento drástico dos recursos destinados a pesquisa: o orçamento do Centro de Tecnologia Mineral representa apenas 2,5 % do equivalente norte-americano.

Vantagens competitivas podem garantir liderança

Além das reservas, o país tem matriz elétrica 80 % renovável, o que reduz a pegada de carbono da mineração e agrada a mercados exigentes. A legislação ambiental rígida e capacidade de rastreabilidade digital reforçam a imagem de fornecedor confiável. A neutralidade diplomática, com assento em fóruns ocidentais e nos BRICS, também amplia a margem de manobra brasileira.

Especialistas veem três passos cruciais: instalar plantas de separação e fabricação de ímãs; integrar projetos de infraestrutura, como novas linhas de transmissão; e fomentar reciclagem, transformando resíduos industriais em fonte adicional de terras raras. A janela de oportunidade, porém, é curta: China e Estados Unidos agem com planejamento centralizado, enquanto o Brasil ainda define seu arcabouço regulatório.

Para aprofundar o debate sobre soberania e estratégia nacional em recursos críticos, confira também a cobertura em Política.

Em síntese, o Brasil dispõe de reservas abundantes, vantagens ambientais e posição geopolítica privilegiada. A transformação desses atributos em valor agregado depende de decisões rápidas sobre licenciamento, financiamento e tecnologia. Acompanhe nossas próximas reportagens e fique por dentro dos desdobramentos dessa disputa vital para a nova economia.

Para informações oficiais e atualizadas sobre política brasileira, consulte também:

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