A queda de mais de 90% nas ações da Ambipar em setembro e o pedido de proteção contra credores revelam os perigos ocultos por trás da chamada “economia verde” promovida pelo governo federal. A empresa, tida como símbolo da agenda ambiental de Brasília, enfrenta dívidas de R$ 11 bilhões, suspeitas de especulação financeira e a possibilidade de recuperação judicial, atingindo em cheio milhares de investidores.
Expansão relâmpago sob a bandeira ambiental
Fundada em 1995 pelo empresário Tércio Borlenghi Júnior, a Ambipar operava de forma discreta até 2020. A partir daí, iniciou uma ofensiva de fusões e aquisições, incorporando cerca de 70 companhias no Brasil e no exterior. O objetivo, segundo a presidente Cristina Andriotti, era tornar o grupo referência global em emergências ambientais e gestão de resíduos.
A virada decisiva ocorreu em 2024. Nesse ano, a Ambipar:
- Estreou na B3 e viu suas ações avançarem 1.000% até dezembro;
- Firmou cinco contratos com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), totalizando R$ 480,9 milhões para serviços logísticos em terras indígenas;
- Captou US$ 750 milhões em green bonds e abriu escritórios em Dubai e Abu Dhabi;
- Alinhou-se à chinesa BYD para projetos ligados à mobilidade elétrica;
- Teve seu CEO convidado para um almoço com o presidente francês Emmanuel Macron, em evento do LIDE.
Em janeiro de 2025, já durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, a empresa assinou protocolo de intenções com o MPI para conservar e recuperar áreas indígenas, atuar em reflorestamento, economia circular e prevenção de desastres. O anúncio foi celebrado como vitrine da “potência verde” prometida pelo governo Lula, que enxerga os biomas nacionais como ativo financeiro internacional.
No mês seguinte, a companhia voltou ao mercado e levantou mais US$ 450 milhões por meio de títulos sustentáveis com vencimento em 2033. O céu parecia o limite.
Derrocada repentina e dívidas bilionárias
O cenário mudou em setembro de 2025. Os green bonds da Ambipar começaram a despencar após fortes vendas ainda não esclarecidas. Analistas estranharam a ausência de recompra de títulos pela empresa, que declarava ter R$ 4,7 bilhões em caixa. Paralelamente, derivativos de swap contratados no Bank of America — depois transferidos ao Deutsche Bank — passaram a gerar perdas adicionais, pois estavam atrelados ao desempenho desses mesmos bonds.


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Com a pressão, a administração entrou em 25 de setembro com pedido de tutela cautelar no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O objetivo era impedir a antecipação de cobranças de débitos que somam R$ 11 bilhões. Entre os credores estão Deutsche Bank, Itaú, Bradesco, Banco ABC, Banco do Brasil, Sumitomo Mitsui e Santander.
O pedido garante 30 dias — prorrogáveis por igual período — para negociações, mas o pânico tomou conta do mercado. As ações, que custavam R$ 25,85 em outubro, chegaram a R$ 0,88, eliminando praticamente todo o valor do papel e gerando perdas expressivas a pequenos e médios investidores.
Impacto nos COEs e alerta ao mercado
A crise provocou rachaduras em outra vitrine das finanças modernas: os Certificados de Operações Estruturadas (COEs). Esses instrumentos combinam renda fixa com variáveis e, em tese, protegem o capital. No entanto, muitos COEs vendidos por BTG Pactual e XP Investimentos estavam lastreados justamente nos papéis da Ambipar (e também da Braskem, que sofreu queda semelhante). Investidores agora relatam perdas de até 100% do valor aplicado.

Imagem: criada utilizando Gini
Em março, a firma norte-americana Grizzly Research já havia classificado os COEs brasileiros como estrutura próxima de pirâmide financeira. O analista André Vieira, no Brazil Stock Guide, reforçou que a mecânica transfere o risco ao cliente, enquanto bancos se blindam com derivativos. O episódio Ambipar escancarou o problema.
Além do prejuízo direto, a quebra de confiança ameaça o discurso de “investimento responsável” usado para justificar aportes em projetos ambientais. No caso brasileiro, a dependência de recursos externos para financiar a agenda climática encontra um obstáculo: a volatilidade elevada e a falta de transparência de muitas companhias que se apresentam como campeãs verdes.
Lições para investidores e formuladores de políticas
O colapso da Ambipar deixa recado claro. Primeiramente, títulos pintados de verde não anulam riscos estruturais, ainda mais quando alavancagem agressiva e derivativos complexos entram em cena. Em segundo lugar, contratos volumosos com órgãos públicos — especialmente em áreas sensíveis como terras indígenas — não garantem solidez empresarial. Por fim, a tentativa de transformar biomas em ativos financeiros requer instituições e controles robustos, sob pena de os contribuintes arcarem com prejuízos privados.
Para quem aplica, a recomendação é simples: ler as letras miúdas, desconfiar de rentabilidades excepcionais e lembrar que, no mercado, a proteção prometida pode custar caro.
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Em resumo, a derrocada da Ambipar expõe a fragilidade de modelos baseados em subsídios oficiais, marketing ambiental e engenharia financeira. Acompanhe o Geral de Notícias para mais análises objetivas e receba alertas sobre os próximos capítulos do mercado.
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