Em apenas dez anos, a Venezuela passou da 4.ª para a 29.ª posição no ranking de destinos do agronegócio brasileiro. O valor embarcado caiu de US$ 2,98 bilhões em 2014 para US$ 919 milhões em 2024, recuo de 69% que revela o impacto direto da crise econômica instaurada no país comandado por Nicolás Maduro.
Exportações de carnes praticamente desaparecem
Os números mais expressivos da retração concentram-se nas proteínas animais. Em 2014, o Brasil enviou 364,3 mil toneladas de carnes para a Venezuela; em 2024, foram apenas 5,2 mil toneladas, baixa de 98,6%. A receita caiu de US$ 1,3 bilhão para US$ 13 milhões, montante que representa 1% do observado dez anos antes.
A carne de frango registrou queda de 200 mil toneladas para 927 toneladas no período, enquanto a bovina encolheu de 160,3 mil toneladas para 723 toneladas, retração de 99,5% em ambos os casos. O segmento de animais vivos, com exceção de pescados, seguiu a mesma trajetória: de 248,3 mil toneladas exportadas em 2014 para apenas 25 toneladas no ano passado, redução de 99,9%.
Outro setor fortemente afetado foi o de lácteos. Os embarques de produtos dessa categoria somaram 39,2 mil toneladas em 2014, mas despencaram para 2,2 mil toneladas em 2024, recuo de 94,3%.
Cereais e óleo de soja ganham espaço, porém com menor valor agregado
Enquanto a pauta tradicional perdeu força, itens de menor valor agregado avançaram. As exportações de cereais cresceram 162,5% na década, as de óleo de soja saltaram 718% e as de preparações à base de cereais aumentaram 183,6%. Apesar da expansão, esses produtos não compensaram o tombo das carnes e dos lácteos. O açúcar, que figura entre os principais artigos enviados hoje, também recuou 45,1% em volume entre 2014 e 2024.
Fatores políticos e financeiros aceleram a redução das compras
Especialistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) atribuem parte da ruptura comercial à mudança de governo no Brasil após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. O distanciamento diplomático reduziu a tolerância brasileira com as dívidas venezuelanas, afetando diretamente mecanismos como o Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos (CCR), que facilitava transações em meio à escassez de divisas.


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Em 2017, o Banco Central suspendeu as operações com a Venezuela no CCR por atrasos reiterados. O Tesouro Nacional arcou com R$ 1,38 bilhão para cobrir inadimplências naquele biênio. Dois anos depois, a autoridade monetária retirou-se unilateralmente do sistema, decisão inédita motivada principalmente pela dívida venezuelana.
Colapso econômico sob Maduro restringe poder de compra
A crise no país vizinho se agravou a partir de 2015, quando a queda na produção e no preço do petróleo, principal fonte de receita, estrangulou as finanças locais. A Assembleia Nacional declarou emergência humanitária já em 2016, mas o regime negou a situação. Relatórios da ONU apontam mais de 5 mil mortes atribuídas às forças de segurança somente até 2017, além de violações sistemáticas de direitos políticos.
Com sanções internacionais, sobretudo dos Estados Unidos, a economia desabou. Pesquisa Encovi mostra que, em 2021, 95% da população vivia na pobreza, sendo 77% em condição extrema. A inflação, estimada em 26% em maio de 2024 pelo Venezuelan Finance Observatory, mantém o poder de compra em colapso e limita as importações, inclusive de alimentos básicos.

Imagem: Ricardo Stuckert
Agro brasileiro busca outros mercados
Para o produtor nacional, a retração venezuelana foi compensada pela ampliação de vendas para Ásia, Oriente Médio e, mais recentemente, África. Ainda assim, a proximidade geográfica e o histórico de comércio tornam a perda relevante. Em 2014, a Venezuela absorvia 3,9% das exportações agropecuárias brasileiras; hoje responde por apenas 0,6%.
Entidades do setor avaliam que a reaproximação política promovida pelo atual governo brasileiro poderá reabrir espaços, mas qualquer retomada dependerá da recuperação econômica de Caracas e do restabelecimento de confiança nos mecanismos de pagamento.
No cenário atual, a combinação de crise interna, restrições financeiras e menor afinidade diplomática mantém as barreiras ao comércio entre os dois países. Para o agronegócio nacional, o foco continua sendo a diversificação de mercados e a redução da dependência de parceiros instáveis.
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Em resumo, a Venezuela perdeu espaço como cliente do agro brasileiro devido à crise prolongada, ao enfraquecimento institucional e às restrições de pagamento. O Brasil, por sua vez, redirecionou exportações para mercados mais estáveis, preservando o ritmo de crescimento do setor. Continue acompanhando nossas atualizações e fique por dentro dos desdobramentos que influenciam o comércio exterior brasileiro.
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