Quem acompanha a trajetória da imprensa brasileira conhece J. R. Guzzo. Em meados dos anos 1980, o jornalista transformou um contratempo num exemplo de profissionalismo que ajudaria a moldar a cultura de mérito da revista Veja. O episódio ocorreu no Palácio Nacional do Haiti, durante uma visita ao então presidente Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier.
Entrevista no Haiti: cinco minutos que viraram vinte
O encontro estava marcado para o fim da manhã. Na antessala, três repórteres aguardavam o presidente: a italiana Oriana Fallaci, um correspondente norte-americano e o brasileiro J. R. Guzzo. Um assessor presidencial avisou que a agenda de Baby Doc atrasaria — e que as entrevistas, previstas para quinze minutos, seriam reduzidas para apenas cinco.
Fallaci reagiu com uma série de palavrões em italiano. O colega americano pediu previsão exata do atraso. Guzzo, acostumado à tolerância brasileira com horários, permaneceu calado. Mais de uma hora depois, o mesmo assessor confirmou o corte de tempo. Indignada, a consagrada jornalista europeia liderou a debandada. O representante dos Estados Unidos a acompanhou. Guzzo ficou.
Quando os dois estrangeiros deixaram o palácio, dez minutos da pauta ficaram vagos. Guzzo aceitou o desafio e, bloco de anotações em mãos, ingressou no gabinete. Resultado: converteu o tempo extra em mais de vinte minutos de conversa exclusiva, publicada posteriormente pela revista Veja.
Da Última Hora ao comando da maior revista de informação
Natural de São Paulo, Guzzo iniciou a carreira na Última Hora, passou pelo Jornal da Tarde e tornou-se correspondente internacional antes de chegar à Editora Abril. Em 1976 assumiu a direção de redação da Veja e a manteve até 1991. Nesse período, a publicação alcançou o posto de quarta maior revista de informação do mundo.
O avanço sustentou-se em critérios claros. Guzzo defendia que “um jornalista precisa separar fato de fantasia”. Para ele, cabia à equipe descartar qualquer dado duvidoso e publicar somente aquilo que pudesse ser comprovado. O método se refletia na apuração rigorosa e na edição minuciosa dos textos.


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Meritocracia como regra editorial
Na redação, vigorava a doutrina do “último da fila”. Sempre que aparecia no mercado um profissional mais competente do que o colaborador menos produtivo da equipe, a substituição era imediata. A prática estimulava desempenho constante e bloqueava acomodações.
Outro princípio determinava que o editor responsável preparasse substitutos capazes de manter — ou elevar — o padrão do material publicado. Caso a qualidade caísse durante as férias do chefe, o aviso era direto: insegurança não combina com liderança editorial.

A política interna valorizava também a competição saudável. Se o editor adjunto entregasse trabalho superior ao titular, cabia ao chefe recuperar terreno ou procurar outro emprego. Essa lógica de responsabilidade individual, somada ao foco no leitor, consolidou a reputação da revista no mercado.
Revisão como arte e resultados na banca
A dedicação de Guzzo à lapidação de texto tornou-se referência. Em um caso lembrado por colegas, ele reescreveu integralmente uma reportagem econômica nas margens do original datilografado. Ao final, perguntou ao autor se desejaria retirar a assinatura. O repórter preferiu mantê-la, orgulhoso de ver seu nome atrelado ao padrão de excelência alcançado.
Práticas como essa ajudaram a ampliar a circulação da Veja nos anos 1980. Com linguagem direta, apuração factual e capa sempre atual, a publicação consolidou-se como leitura obrigatória para quem busca informações concisas sobre política, economia e cultura.
Legado para o jornalismo brasileiro
O episódio no Haiti sintetiza a postura de J. R. Guzzo: pontualidade pode falhar, mas compromisso com a missão jornalística não. Ele aproveitou a oportunidade, registrou a entrevista e entregou conteúdo exclusivo ao leitor. Na redação, aplicou a mesma disciplina para formar equipes que respondiam com agilidade e precisão aos acontecimentos.
Guzzo demonstrou que meritocracia, clareza de metas e atenção rigorosa ao detalhe fortalecem qualquer veículo de comunicação. Ao transformar cinco minutos em vinte, reforçou a máxima de que o resultado importa mais do que o obstáculo — princípio que sustenta o jornalismo profissional até hoje.


