O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve, nesta quinta-feira (7), uma conversa telefônica de aproximadamente uma hora com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. O foco do diálogo foi o impacto imediato das tarifas de 50% impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre exportações brasileiras e indianas. Os dois chefes de governo decidiram reforçar a coordenação bilateral como forma de mitigar efeitos do chamado “tarifaço” e, ao mesmo tempo, ampliar o fluxo comercial entre Brasília e Nova Délhi.
Meta de US$ 20 bilhões até 2030
De acordo com nota da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), Lula e Modi concordaram em fixar a meta de elevar o intercâmbio comercial para mais de US$ 20 bilhões até 2030. Para atingir esse patamar, os dois mandatários planejam estender a cobertura do atual acordo Mercosul-Índia, hoje restrito a um conjunto limitado de bens. A ampliação poderá incluir novos segmentos industriais, produtos agrícolas de maior valor agregado e serviços de tecnologia da informação.
O governo indiano divulgou comunicado semelhante, reforçando a intenção de aprofundar cooperação em comércio, tecnologia, energia, defesa, agricultura, saúde e iniciativas de “people-to-people”. Segundo Nova Délhi, a parceria estratégica deverá “alcançar novos patamares” nos próximos anos, beneficiando diretamente empresas dos dois lados.
Calendário de encontros presenciais
Durante a ligação, Lula confirmou a Modi que visitará a Índia no início de 2026. Antes disso, ainda em outubro de 2025, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, viajará ao país asiático acompanhado de uma delegação de empresários e titulares de várias pastas econômicas. A missão terá como principais objetivos negociar a lista de produtos que passarão a ter tarifas reduzidas e identificar parcerias em infraestrutura, agronegócio e economia digital.
O primeiro-ministro recordou sua visita a Brasília no mês anterior, quando ambos os líderes já haviam discutido formas de estreitar relações econômicas. Na ocasião, foram delineados os contornos de um plano de ação para a próxima década, que agora ganha urgência diante da política tarifária norte-americana.
Sistemas de pagamento na pauta
Outro ponto tratado foi a integração de plataformas de pagamento instantâneo. Lula apresentou detalhes do Pix, sistema brasileiro que movimenta bilhões de transações a cada mês, enquanto Modi descreveu a UPI (Unified Payments Interface), solução equivalente utilizada por milhões de indianos. A troca de informações visa construir mecanismos de liquidação financeira mais rápidos e baratos no comércio bilateral.


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A discussão sobre pagamentos ocorre em meio à investigação aberta nos Estados Unidos contra o Pix, anunciada logo após a aplicação das novas tarifas. Segundo Lula, a revisão foi motivada por supostas ameaças às bandeiras tradicionais de cartão de crédito. Tanto Brasil quanto Índia enxergam o fortalecimento de meios próprios de pagamento como forma de reduzir custos e dependência de intermediários estrangeiros.
Resposta coordenada ao tarifaço
Brasil e Índia figuram no topo da lista de países atingidos pela tarifa de 50% fixada por Trump sobre um conjunto amplo de produtos industrializados e agrícolas. O impacto potencial nas exportações dos dois parceiros levou os governos a buscar soluções conjuntas, destacando a defesa do “multilateralismo”. Na prática, a expressão traduz o interesse em preservar rotas comerciais diversificadas e evitar sobrecarga de custos para produtores e consumidores.

Embora a Casa Branca tenha sinalizado disposição para discutir exceções caso empresas norte-americanas sejam afetadas, até o momento não houve recuo oficial. Frente a esse cenário, Brasília e Nova Délhi pretendem acelerar a diversificação de mercados, ampliando vendas recíprocas e para terceiros países por meio de acordos regionais.
Próximos passos
A Secom informou que grupos técnicos já trabalham na revisão do acordo Mercosul-Índia. Estudos preliminares apontam oportunidades imediatas em fertilizantes, defensivos agrícolas, equipamentos médicos, peças automotivas e tecnologia da informação. A expectativa do Itamaraty é que parte da nova lista tarifária esteja concluída a tempo da missão de Alckmin em outubro.
Por sua vez, o governo indiano sinalizou que poderá conceder prioridade a produtos brasileiros como óleo de soja, carne desossada e açúcar bruto, setores onde o Brasil mantém forte competitividade. Em troca, busca abertura ampliada para medicamentos genéricos, insumos químicos e tecnologia de informação.
Contexto político
A ligação entre Lula e Modi ocorreu em meio a intensa agenda diplomática envolvendo reações ao protecionismo americano. Na última semana, chanceleres do G20 já haviam discutido o tema sem chegar a consenso. A Índia, que presidirá o bloco no próximo ciclo, deve usar a posição para pressionar por uma saída negociada que limite o alcance das novas tarifas.
Enquanto isso, a estratégia brasileira foca em parcerias bilaterais e regionais para garantir canais de escoamento da produção. Com o agronegócio e a indústria de transformação sob risco de perda de competitividade, o Planalto avalia que acordos como o Mercosul-União Europeia e a ampliação do pacto com a Índia ganham nova relevância.
Nos próximos meses, técnicos dos dois países devem concluir estudos de viabilidade e agendar reuniões presenciais para detalhar cronogramas. Segundo a presidência, a meta de US$ 20 bilhões em comércio bilateral até 2030 só será alcançada se as mudanças tarifárias entrarem em vigor a partir de 2026, coincidentemente o ano previsto para a visita de Lula a Nova Délhi.


