Uma sequência de protestos recentes colocou em evidência a contradição de parte da elite financeira e cultural brasileira que defende aumentar impostos sobre os “muito ricos” enquanto circula pelos mesmos espaços criticados. O episódio mais simbólico ocorreu na Avenida Faria Lima, em São Paulo, quando manifestantes identificados pelo MTST invadiram uma agência do Itaú para exigir a chamada “taxação dos super-ricos”.
Herdeiro do Itaú apoia cobrança maior sobre fortunas
O cineasta Walter Salles Jr., herdeiro direto do banco alvo da manifestação, declarou publicamente ser favorável à medida. O apoio do diretor foi divulgado pouco antes do ato, reforçando o contraste entre patrimônio pessoal e discurso de distribuição de renda. A mobilização ocorreu em 16 de julho de 2025 e reuniu dezenas de pessoas que exibiam faixas e cartazes defendendo a criação de novas alíquotas para grandes fortunas.
Segundo os organizadores, o objetivo era pressionar o Congresso Nacional a aprovar projetos de lei que instituam cobrança extra sobre patrimônios elevados. Para o grupo, o sistema tributário atual penaliza os mais pobres e alivia o topo da pirâmide. O protesto recebeu ampla cobertura da imprensa, que destacou o paradoxo de um herdeiro bilionário apoiar o ato que atingia justamente a instituição da própria família.
Shopping Leblon vira palco de nova manifestação
Alguns dias depois, integrantes do mesmo movimento escolheram o Shopping Leblon, na zona sul do Rio, para nova ação. O local concentra grifes internacionais e é frequentado por parte do eleitorado que tradicionalmente vota em candidatos de esquerda, como Guilherme Boulos, liderança do MTST. De acordo com relatos, vários clientes, muitos deles proprietários de imóveis avaliados entre os mais caros do país, testemunharam o ato que pedia “justiça tributária”.
A coincidência ganhou repercussão porque, na mesma semana, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, foi vista fazendo compras no mesmo shopping, durante intervalo da conferência dos Brics realizada no Rio. A presença da representante de um governo que se diz voltado aos mais pobres gerou críticas nas redes sociais, onde usuários apontaram incoerência entre o discurso de distribuição de renda e o hábito de consumo em um dos pontos comerciais mais caros do Brasil.
IOF, inflação e silêncio de famosos
A cobrança por coerência se intensificou após o governo federal tentar elevar o IOF, alegando “justiça social” para justificar o aumento. O Ministério da Fazenda, por meio de declaração pública, relacionou diretamente o acréscimo do imposto sobre operações financeiras a uma suposta correção de desigualdades. A medida, no entanto, sofreu resistência no Congresso e foi contestada judicialmente.


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Mesmo assim, não houve mobilização comparável de celebridades ou formadores de opinião contra o aumento do IOF – tributo considerado regressivo porque incide sobre empréstimos e cartões usados principalmente pela classe média. A ausência de qualquer campanha em defesa dos contribuintes comuns contrastou com o entusiasmo demonstrado quando o alvo era a taxação de fortunas.
Outro ponto criticado foi o silêncio sobre o recente escândalo no INSS, que expôs prejuízo bilionário aos aposentados mais vulneráveis. Nenhuma das personalidades que defendem tributos mais altos para grandes patrimônios se pronunciou sobre o rombo, tampouco houve atos nas ruas para pressionar por investigação rápida.
Atores e empresários aderem à retórica “taxe os ricos”
Na esfera cultural, a atriz que interpretou Odete Roitman, figura icônica da teledramaturgia, usou a imagem da personagem para declarar apoio a impostos adicionais sobre os mais abastados. A iniciativa foi elogiada por veículos de comunicação, mas ignorou os efeitos de outras cobranças recentemente reajustadas – como impostos federais sobre combustíveis e energia – que atingem diretamente a população de renda baixa.

Imagem: Fernando Bizerra
Críticos observam que a campanha surgiu no momento de maior rejeição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde o início do mandato, coincidindo com inflação persistente e incertezas econômicas. Para analistas, chamar atenção para a taxação dos super-ricos seria uma forma de deslocar o debate das falhas de gestão e do aumento do custo de vida.
Contradição em evidência
O contraste entre discurso e prática também se estende aos próprios simpatizantes do MTST instalados em bairros como Leblon, Vila Madalena e Jardins – regiões com metro quadrado entre os mais caros da América Latina. A proximidade desses apoiadores com imóveis de alto valor reforça o questionamento sobre a real motivação das manifestações: redistribuição de renda ou defesa de interesses partidários.
Se a intenção fosse reunir todos em “um mesmo barco”, como ironizou o colunista Guilherme Fiuza, as invasões poderiam dar lugar a eventos festivos promovidos pelos próprios milionários que afirmam desejar pagar mais impostos. Enquanto isso, medidas que impactam diretamente o bolso dos trabalhadores, como IOF mais alto e inflação acima da meta, seguem avançando sem oposição organizada dessas figuras influentes.
Para acompanhar outras pautas sobre políticas públicas e cobrança de impostos, veja a cobertura em nossa editoria de Política, atualizada diariamente.
Em resumo, a série de protestos expôs a dissonância entre o discurso de justiça tributária e o estilo de vida de parte dos seus porta-vozes. A cobrança por coerência deve crescer conforme novas propostas de aumento de impostos avancem no Congresso. Continue seguindo nossas atualizações e participe do debate nos comentários.
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