BRASÍLIA – Um levantamento do Instituto Locomotiva divulgado neste mês indicou que 85% dos brasileiros concordam com a criação de uma legislação para “regular as redes sociais a fim de proteger crianças e adolescentes”. A mesma pesquisa vem sendo citada por veículos de imprensa como demonstração de apoio amplo e genérico à regulação do meio digital, sem, porém, detalhar no título que a pergunta apresentada aos entrevistados estava vinculada especificamente à proteção de menores.
Formulação da pergunta direciona a resposta
De acordo com o questionário do Instituto Locomotiva, o item que alcançou 85% de concordância foi: “É importante existir uma legislação que regule as redes sociais para proteger crianças e adolescentes”. A inclusão explícita da causa infantil tende a gerar elevada adesão popular, fenômeno já observado em pesquisas sobre temas sensíveis.
Alguns portais, entre eles a CNN Brasil, destacaram o resultado com o título “85% dos brasileiros defendem a regulação das redes sociais”, suprimindo no cabeçalho a referência à segurança de menores. Especialistas em metodologia alertam que o recorte pode induzir a leitura de que a maioria da população apoia qualquer tipo de controle sobre plataformas digitais, o que não necessariamente corresponde ao questionário aplicado.
Somente no terceiro parágrafo da matéria é esclarecido que a aprovação está condicionada à salvaguarda de crianças e adolescentes. Como grande parte do público consome apenas título e subtítulo, abre-se espaço para interpretações de que haveria forte respaldo social a propostas de monitoramento ou remoção de conteúdo sem detalhamento sobre critérios, instâncias decisórias e limites impostos pela Constituição.
Debate legislativo avança em meio a críticas de censura
No Congresso, projetos de lei sobre regulação de redes sociais têm sido defendidos pelo governo federal sob o argumento de combater crimes virtuais, inclusive exploração infantil. Um dos textos inclui a possibilidade de responsabilizar preventivamente as plataformas por publicações classificadas como “ataques ao Estado Democrático de Direito”. Juristas avaliam que a redação genérica pode permitir bloqueio prévio de conteúdos políticos e, portanto, afrontar o artigo 5.º, inciso IX, da Constituição, que veda qualquer forma de censura.
Casos recentes de captura e punição de criminosos virtuais que aliciavam menores – executados com base na legislação já existente – reforçam a posição de parlamentares contrários à criação de uma nova camada regulatória. Para esses congressistas, a prioridade deveria ser estruturar órgãos de investigação e acelerar decisões judiciais, não delegar às empresas de tecnologia o papel de árbitro do discurso público.


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Organizações da sociedade civil também questionam a extensão do conceito “proteção de crianças” nos projetos, receando que dispositivos vagos sirvam de atalho para criminalizar críticas a políticas públicas ou figuras no poder. A experiência de outras nações é frequentemente citada: na União Europeia, por exemplo, a Lei de Serviços Digitais impõe obrigações de transparência, mas mantém a necessidade de ordem judicial antes de derrubar publicações lícitas.
Transparência na divulgação de pesquisas
A apresentação dos dados pelo Instituto Locomotiva renovou a discussão sobre o rigor na comunicação de pesquisas de opinião. Manual de boas práticas do jornalismo recomenda que manchetes contemplem os elementos centrais da pergunta aplicada, evitando conclusões amplas sem embasamento direto. Quando o título omite condicionantes – neste caso, a proteção infantil – o leitor pode ser levado a apoiar propostas de controle mais extensas do que realmente avaliou.

Imagem: Andres Ballesteros
Analistas ressaltam que a divulgação precisa de pesquisas é fundamental para o debate democrático, pois influencia parlamentares, formadores de opinião e decisões governamentais. No cenário polarizado atual, qualquer margem para ambiguidade pode distorcer percepções e legitimar medidas que restrinjam liberdades individuais em nome de objetivos supostamente consensuais.
Desafios para equilibrar segurança e liberdade
O impasse permanece: como assegurar um ambiente digital seguro para crianças sem sacrificar a liberdade de expressão dos demais usuários? Defensores de uma regulação restrita acreditam que o foco deve ser a aplicação efetiva do Estatuto da Criança e do Adolescente, aliado a campanhas de educação midiática nas escolas e responsabilização criminal de infratores identificados. Já os proponentes de um arcabouço mais abrangente sustentam que plataformas precisam de obrigações legais claras para agir com rapidez e retirar conteúdos nocivos.
Enquanto a discussão prossegue, cabe ao Congresso definir parâmetros objetivos que protejam menores de idade sem abrir precedentes para censura prévia ou cerceamento de críticas legítimas. A opinião pública, por sua vez, depende de informação completa e transparente para avaliar a conveniência de cada proposta.
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Em síntese, a pesquisa do Instituto Locomotiva mostra elevado apoio à criação de regras quando o tema envolve proteção infantil, mas não autoriza concluir que a maioria dos brasileiros endosse qualquer mecanismo amplo de controle das redes. O debate legislativo continuará intenso e exigirá vigilância do cidadão para que a segurança de menores não se transforme em pretexto para restringir direitos constitucionais. Acompanhe nossos próximos conteúdos e participe deixando sua opinião nos comentários.
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