Quem produz no Brasil enfrenta, desde agosto, o pior nível de confiança registrado desde a fase mais crítica da pandemia de Covid-19. O índice medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) contabilizou queda pelo terceiro mês seguido e atingiu patamar próximo ao de março de 2021. O gatilho foi a tarifa adicional de 40% aplicada pelos Estados Unidos sobre cerca de 55% das exportações nacionais, medida que expôs as fragilidades de um ambiente já pressionado por juros elevados e falta de reformas estruturais.
Efeito imediato das tarifas sobre a indústria
A reação mais aguda ocorreu na indústria voltada ao mercado externo. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que o índice de confiança dos exportadores recuou 9,2% entre junho e agosto, migrando do otimismo para um quadro de forte pessimismo. Em consequência, as exportações para os EUA caíram 18,5% no primeiro mês de vigência da tarifa, totalizando US$ 2,6 bilhões, menor valor para um mês de agosto desde 2020.
Alguns produtos sentiram o impacto de forma explícita. Aeronaves e peças tiveram queda de 93%; turbinas a gás recuaram 60,9%; óleos essenciais, 52,25%; madeira perfilada, 48,5%; e carne bovina congelada, 47,69%. Empresas relatam preocupação com o desvio de comércio: itens originalmente destinados ao mercado americano tendem a ser redirecionados internamente, ampliando a concorrência local.
As expectativas também se deterioraram. O indicador da CNI para intenção de investimento atingiu o menor nível desde outubro de 2023, e o componente de expectativa de emprego aferido pela FGV retrocedeu ao pior resultado desde junho de 2020.
Prejuízos bilionários e risco de demissões
Projeções da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) indicam perda potencial de até R$ 110 bilhões no Produto Interno Bruto em um intervalo de cinco a dez anos, além da eliminação de 618 mil postos de trabalho. Simulações do Núcleo de Estudos em Modelagem Econômica e Ambiental Aplicada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) preveem recuo adicional de R$ 31 bilhões no PIB em dois anos e corte de 188,7 mil vagas.
Segmentos como aço, químicos e madeira — intensivos em mão de obra e fortemente integrados a cadeias globais — concentram as maiores perdas. Estados com maior peso da indústria exportadora, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, aparecem entre os mais vulneráveis.


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A lista de exceções ao tarifaço beneficiou algumas unidades da federação, mas a abrangência permanece limitada. No Ceará, por exemplo, 44,9% das vendas externas dependem do mercado norte-americano e 98,6% dos itens ficaram fora das exceções, aumentando o risco sobre emprego e renda locais.
Juros altos reforçam retração do consumo
Enquanto o setor produtivo revê planos, o consumidor adota postura defensiva. Pesquisa da HSR Specialist Researchers revela que 54% dos entrevistados sentem impacto direto das tarifas no orçamento, sobretudo em alimentos, combustíveis e medicamentos. Com a taxa Selic em 15% ao ano, a política monetária contracionista comprime crédito e renda disponível, limitando a capacidade de compra das famílias.

Imagem: Eduardo Oliveira
O consumo, que avançou 4,8% em 2024, deve crescer apenas 2,3% em 2025, segundo estimativas da CNI. A queda de confiança também atinge o público, com o FGV Ibre registrando retração nas expectativas sobre situação econômica e financeira familiar pelo terceiro mês consecutivo.
Dependência externa evidencia necessidade de reformas
Especialistas do FGV Ibre apontam que a combinação de choque externo e fragilidade interna reforça a urgência de uma agenda de modernização: abertura comercial, simplificação tributária e controle de gastos públicos. Sem ajustes, a economia nacional segue exposta a decisões unilaterais de parceiros e a um ambiente interno pouco atraente para investimentos de longo prazo.
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Em síntese, a tarifa de 40% imposta pelos Estados Unidos acelerou a perda de confiança, congelou investimentos, ameaçou empregos e obrigou o consumidor a adiar compras essenciais. A resposta empresarial e o ajuste de gastos das famílias compõem um quadro que pode reduzir o crescimento nos próximos anos, caso medidas estruturais não avancem. Compartilhe esta matéria e fique informado sobre os próximos passos da economia brasileira.
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