Brasília vive uma dupla tensão: de um lado, o aumento das sanções norte-americanas contra autoridades brasileiras; de outro, a reta final do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). Diante desse cenário, o Congresso Nacional tenta romper o próprio impasse e assumir protagonismo nas respostas institucionais.
Pressão externa e julgamento intensificam crise
Os Estados Unidos ameaçam estender punições já aplicadas ao ministro Alexandre de Moraes a parlamentares e auxiliares do STF. As medidas seguem a lógica da Lei Magnitsky, utilizada por Washington para bloquear bens e restringir viagens de autoridades acusadas de violações de direitos humanos. Paralelamente, entrou em vigor em 6 de agosto uma tarifa de 50 % sobre produtos brasileiros, elevando o custo de exportações estratégicas.
No mesmo intervalo, o STF fixou 13 de agosto como data-limite para as alegações finais das defesas de Bolsonaro e de outros sete réus acusados de tentativa de golpe. A expectativa interna é de que Moraes apresente rapidamente seu voto, abrindo caminho para uma decisão ainda neste mês. Analistas apontam que uma condenação pode acelerar novas sanções e, possivelmente, levar a um rompimento parcial das relações bilaterais.
Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca apoio de Índia, Rússia e China para contestar o tarifaço dentro do bloco Brics, o governo norte-americano convidou Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o jornalista Paulo Figueiredo para reuniões na Casa Branca, em 13 e 14 de agosto. A convocação reforça o discurso de Washington de que o processo contra o ex-presidente seria uma “caça às bruxas”.
Congresso tenta romper a paralisia
Na Câmara, a oposição condicionou votações à apreciação de três temas: anistia dos réus de 8 de janeiro, fim do foro privilegiado e impeachment de Moraes. Após obstruções físicas na semana de 6 de agosto, líderes fecharam acordo informal que destravou sessões, mas não garantiu pauta. Hoje, apenas a PEC do foro privilegiado apresenta chances reais de avanço.
Consultorias políticas como Action e Ética apontam que o Legislativo dispõe dos instrumentos para reagir à crise, mas hesita em usá-los. Deputados e senadores controlam bilhões em emendas, porém ainda não assumiram o papel de contrapeso previsto na Constituição. Nos bastidores, avalia-se que o Centrão, bloco sem orientação ideológica definida, mantém a estabilidade do governo ao custo de travar mudanças estruturais.


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No Senado, o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) já sinalizou que não pautará o processo de impeachment de Moraes, apesar das 41 assinaturas recolhidas pela oposição — são necessários 54 votos para aprovação final. A base governista, por sua vez, prioriza projetos como a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil e o Novo Plano Nacional de Educação, tentando deslocar o foco para agendas sociais.
Estratégia do Planalto agrava atrito com Washington
Especialistas ouvidos por consultorias de risco veem no Palácio do Planalto um viés ideológico que dificulta a negociação. Lula determinou aos ministros da Fazenda, Relações Exteriores e Indústria a elaboração de uma lista de possíveis retaliações comerciais contra bens e serviços norte-americanos. Até o momento, porém, a resposta se limita a promessas de socorro a exportadores afetados pelo tarifaço.

A Casa Branca, por sua vez, invoca a doutrina de combate ao crime organizado do governo Donald Trump para enquadrar facções transnacionais como ameaça à segurança. O Departamento de Estado pressiona Brasília a reconhecer essas organizações como terroristas — medida rechaçada pelo governo Lula, que teme impacto na política de segurança interna. A recusa tem travado acordos de cooperação e ampliado o fosso diplomático.
Outro ponto de atrito foi o cancelamento de uma reunião virtual entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent. Oficialmente, o motivo foi “agenda”. Nos bastidores, o impasse está ligado às sanções e ao processo contra Bolsonaro. Haddad responsabilizou a “militância antidiplomática” da direita; Eduardo Bolsonaro, por sua vez, atribuiu a suspensão à “incompetência” do ministro e ao “viés antiamericano” do Executivo.
Próximos passos
No curto prazo, o julgamento de Bolsonaro deve ser o gatilho para novos desdobramentos. Caso a condenação se confirme, os Estados Unidos podem ampliar o escopo de sanções, inclusive envolvendo negócios de empresas estatais brasileiras suspeitas de apoio indireto à Rússia na guerra da Ucrânia.
Paralelamente, a cobrança sobre o Congresso tende a crescer. Sem ação legislativa que dê resposta institucional à crise — seja aprovando a PEC do foro, seja deliberando sobre anistia ou impeachment —, ganha força o discurso de que Brasília terceiriza decisões a Washington. O risco, alertam consultores, é o país ver sua política externa e seu ambiente de negócios redefinidos por medidas unilaterais norte-americanas.
Diante desse quadro, lideranças parlamentares discutem uma espécie de “pacote da paz” para reduzir tensões internas e sinalizar estabilidade ao exterior. A proposta inclui votações em bloco de projetos de interesse da oposição, além de um compromisso formal de respeito à separação de Poderes. Até agora, não há consenso sobre prazos.
Enquanto o impasse persiste, a economia sente os primeiros reflexos: exportadores registram aumento de custos logísticos, e investidores avaliam cenários de médio prazo diante da possibilidade de novas restrições. A convergência de fatores — sanções, julgamento no STF e disputa política interna — coloca o Congresso diante de sua maior prova de liderança em crise internacional desde a redemocratização.


