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China reforça domínio em energia e portos no Brasil sob ausência de estratégia nacional

Política

São Paulo, 18 out. 2025 – O fluxo de capital chinês para o Brasil avançou 113% em 2024, atingindo US$ 4,18 bilhões e colocando o país como terceiro maior destino global desses recursos. Apesar do salto, o governo ainda não definiu critérios para proteger setores sensíveis, permitindo que ativos chave – energia, logística, agronegócio e minerais críticos – passem gradualmente ao controle de empresas alinhadas ao regime de Pequim.

Energia concentra a maior fatia e eleva risco de dependência

Entre 2007 e 2024, 45% do total investido por grupos chineses no Brasil foi destinado à eletricidade. O movimento inclui a compra de hidrelétricas, linhas de transmissão e projetos de geração renovável. Apenas no último ano, o segmento recebeu 34% dos novos aportes e liderou em número de projetos (22), recorde histórico.

Além das fontes limpas, interesses em petróleo cresceram: cerca de US$ 1 bilhão, ou 25% do montante anual, manteve a China entre as principais financiadoras da extração no pré-sal. Analistas alertam que o controle estrangeiro sobre geração e distribuição confere poder de pressão em cenários de crise, especialmente quando vinculado a um Estado com planejamento centralizado.

Para o professor Alexandre Uehara, da ESPM, “o Brasil precisa estabelecer parâmetros claros sobre onde o capital externo pode entrar e em quais condições”, sob pena de perder autonomia em decisões estratégicas.

Portos, agronegócio e minerais completam o cerco logístico

No Porto de Santos, a estatal Cofco International arrematou o terminal STS-11 e planeja investir US$ 285 milhões na primeira fase. A operação inclui 23 locomotivas e 979 vagões para levar até 4 milhões de toneladas anuais de grãos ao terminal. Já a China Merchants Port controla o Terminal de Contêineres de Paranaguá e negocia participação no Porto do Açu (RJ), ponto apto a navios petroleiros de grande porte.

Essa estratégia garante a Pequim acesso preferencial ao escoamento de commodities, da produção no campo até o embarque. No agronegócio, a Cofco figura entre as maiores comercializadoras de grãos e, via reorganização societária, transferiu ativos de sementes para a Syngenta, pertencente ao mesmo conglomerado estatal chinês.

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A operação incluiu bancos genéticos de milho adaptados ao solo brasileiro, repassando décadas de pesquisa local. A Yuan LongPing High-Tech e o CITIC Agri Fund também adquiriram germoplasmas nacionais, ampliando a influência chinesa sobre a cadeia de valor agrícola.

Nos minerais críticos, a China Nonferrous comprou a mineradora Taboca, produtora de estanho, nióbio e tântalo no Amazonas. No Vale do Jequitinhonha (MG), a BYD adquiriu direitos sobre duas áreas ricas em lítio. Em 2024, mineração somou 13% do capital chinês no país, cerca de US$ 556 milhões, mas o Brasil ainda exporta quase toda a produção bruta, sem dominar tecnologias de transformação.

Expansão geográfica dilui visibilidade e dificulta resposta

Empreendimentos chineses alcançaram 14 estados em 2024, seis a mais que no ano anterior. O Sudeste concentrou 48% do valor investido, menor participação da série histórica, enquanto Sul, Nordeste e Norte avançaram para 17%, 14% e 7%, respectivamente. A capilaridade reduz o impacto político de cada projeto e cria múltiplos pontos de dependência regional.

O professor Carlos Honorato, da FIA Business School, compara a tática ao jogo Go: “Não se busca a grande jogada única, mas ocupar posições pouco a pouco, pensando em décadas”. Como resultado, eventuais tentativas de reversão tornam-se caras e complexas.

Falta de filtros contrasta com práticas internacionais

Países como Austrália e membros da União Europeia adotam processos de revisão obrigatória para investimentos estrangeiros em setores estratégicos, com poder de veto estatal. No Brasil, não há mecanismo similar de alcance nacional. A ausência de critérios objetivos estimula a assimetria: empresas ocidentais respondem a acionistas e resultados trimestrais; já as chinesas podem assumir perdas iniciais em nome de metas de longo prazo determinadas por Pequim.

A discussão ganhou contorno externo. Nos Estados Unidos, o senador republicano Tom Cotton incluiu em projeto de lei exigência de investigação sobre a expansão chinesa no agronegócio brasileiro, apontando riscos à segurança alimentar global.

Sem diretrizes que definam limites e contrapartidas, o Brasil transforma ativos estratégicos em peças de um tabuleiro controlado por outro Estado. Especialistas defendem a criação de um marco regulatório que preserve a liberdade de investimento, mas impeça a perda de soberania em setores vitais.

Para acompanhar como o debate avança no Congresso e em outras instâncias decisórias, confira nossa editoria de Política, atualizada diariamente.

O avanço chinês confirma que ausência de política clara gera dependência. A definição de critérios transparentes para capitais externos torna-se urgente para equilibrar atração de investimentos e proteção do interesse nacional. Compartilhe este conteúdo e participe da discussão sobre caminhos para preservar a autonomia econômica do Brasil.

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