Desde a década de 1930, sociólogos e antropólogos passaram a empregar a expressão “catolicismo popular” para designar formas de devoção praticadas fora do controle direto do clero. O termo, importado da sociologia religiosa francesa, foi adotado no Brasil com o objetivo de classificar procissões, promessas, benzimentos e festas que ocorriam sobretudo em áreas rurais, onde a presença hierárquica da Igreja era limitada.
Origem francesa e adoção brasileira
O ponto de partida do conceito remonta à escola de Gabriel Le Bras e Henri Desroche, dedicada a estudar o catholicisme populaire na França rural. No Brasil, a expressão encontrou terreno fértil entre 1930 e 1960, quando pesquisadores ligados às ciências sociais buscaram diferenciar a religiosidade “vivida” da religiosidade “oficial”.
Gilberto Freyre, em 1933, descreveu um “catolicismo doméstico” marcado por influências africanas e indígenas, ainda que não utilizasse a categoria em sentido técnico. Já o francês Roger Bastide, em trabalhos sobre religiões afro-brasileiras, incorporou a noção para legitimar a ideia de sincretismo religioso como traço nacional. Na década de 1970, o sociólogo Cândido Procópio Ferreira de Camargo sistematizou o tema em estudos que distinguiam três polos: catolicismo oficial, catolicismo popular e catolicismo de elite.
Nova função ideológica no pós-1960
Com a ascensão das ciências sociais de inspiração marxista e da Teologia da Libertação, o rótulo “catolicismo popular” passou a ser usado para contrapor o suposto “catolicismo das massas” ao catolicismo institucional. Pesquisadores como Maria Isaura Pereira de Queiroz, Pierre Sanchis, Luiz Alberto Gomes de Souza e Rubem César Fernandes apresentaram o fenômeno como expressão de resistência cultural e religiosa das camadas populares frente à hierarquia.
Nesse contexto, práticas sincréticas que mesclavam devoções católicas, espiritismo kardecista e cultos afro-brasileiros foram interpretadas como sinal de criatividade popular e mecanismo de contestação ao clero. O conceito, portanto, ganhou contornos políticos, integrando-se a esquemas analíticos baseados na luta de classes.
Dilema metodológico das ciências sociais
No mesmo período, autores estrangeiros apontaram dificuldades de abordagem do cristianismo dentro das ciências sociais. O antropólogo francês Bruno Latour observou que explicações meramente sociológicas tendem a desconsiderar o ponto de vista interno dos fiéis. Fenella Cannell, pioneira na antropologia do cristianismo, acrescentou que a disciplina tratou o tema como “fenômeno secundário”.


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Entre teóricos, destaca-se ainda o impacto da tese de Ludwig Feuerbach, segundo a qual a religião seria projeção das potências humanas. A aproximação feuerbachiana influenciou leituras relativistas e contribuiu para a preferência, por parte dos cientistas sociais, por análises externas ao conteúdo confessional.
Crítica à separação entre povo e Igreja
Pesquisadores contemporâneos argumentam que a divisão entre “catolicismo popular” e “catolicismo oficial” não corresponde ao modo como os próprios fiéis se identificam. Segundo essa leitura, a ênfase acadêmica no sincretismo teria ocultado a unidade doutrinária que caracteriza o catolicismo, criando uma oposição artificial entre leigos e hierarquia.

Imagem: José Cruz
Para esses críticos, a disseminação do conceito afastou a atenção da piedade popular enquanto expressão legítima da mesma fé professada na liturgia romana. Ao isolar manifestações devocionais e enquadrá-las como resistência social, parte da produção acadêmica teria transformado uma categoria analítica em instrumento de mobilização política.
Desdobramentos atuais
Hoje, o termo “catolicismo popular” continua presente em pesquisas sobre religião, cultura e identidade brasileira. Entretanto, há crescente demanda por abordagens que conciliem a análise sociológica com o ponto de vista nativo, respeitando o vínculo dos devotos com a doutrina oficial. Estudos recentes buscam verificar até que ponto práticas classificadas como populares se mantêm em comunhão com o ensinamento da Igreja ou incorporam elementos externos.
Nesse cenário, o debate sobre a validade da categoria gira em torno de duas questões centrais: a unidade de fé entre leigos e clero e o impacto ideológico da interpretação marxista que marcou parte da bibliografia brasileira. A tendência é que novas investigações revisitem arquivos, liturgias e testemunhos para aferir a real extensão da autonomia leiga e a influência de correntes teológicas no campo acadêmico.
Para quem acompanha a interface entre religião e política, vale conferir a seção específica de nosso portal em Política, onde análises sobre a atuação de igrejas e movimentos sociais são atualizadas diariamente.
Em síntese, o percurso histórico do conceito de “catolicismo popular” evidencia como categorias acadêmicas podem ganhar significados políticos ao longo do tempo. A discussão permanece aberta, convidando pesquisadores e fiéis a reavaliar a relação entre devoção popular e magistério oficial.
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