Uma investigação acadêmica recente questiona a veracidade histórica de Dandara dos Palmares e de Luísa Mahin, duas figuras celebradas como símbolos da resistência negra e inscritas no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria desde 2019. O trabalho conduzido pela historiadora Wlamyra Albuquerque e pela pesquisadora Lisa Earl Castillo, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), indica que há poucos ou nenhum registro documental que sustente a narrativa tradicional sobre as duas personagens. O levantamento reacende o debate sobre a instrumentalização política de lendas no Brasil.
O que o novo estudo revela sobre Luísa Mahin
Luísa Mahin é conhecida popularmente como protagonista da Revolta dos Malês (1835) e de outros levantes de escravizados na Bahia. A nova pesquisa, publicada na revista Afro-Ásia, recuperou escrituras, testamentos e documentos do Arquivo Público da Bahia. Entre eles, consta o testamento de Maria Rosa de Jesus, datado de 1837, revelando que uma cativa chamada “Luiza” e seu filho, “Luiz Gonzaga Pinto da Gama”, foram libertados. O menino seria o futuro advogado abolicionista Luiz Gama.
Segundo as autoras, as únicas referências diretas sobre Mahin partem do próprio Luiz Gama, que, em carta autobiográfica, descreveu a mãe como quitandeira e “suspeita” de envolvimento em motins. Não há processos criminais, registros de prisão nem menções à participação dela em conspirações armadas. A primeira associação da personagem à Revolta dos Malês surge apenas em um romance publicado um século depois, evidenciando que a imagem de “heroína revolucionária” foi construída a posteriori, especialmente por militância ligada ao feminismo negro.
Dandara: ficção literária confundida com realidade
O caso de Dandara dos Palmares vai além da ausência de documentos: não existe indício de que ela tenha sequer existido. Sua figura aparece pela primeira vez no romance Ganga Zumba, de João Felício dos Santos, lançado em 1962. A obra, assumidamente ficcional, apresenta Dandara como companheira de Zumbi e líder guerreira no Quilombo dos Palmares.
Entretanto, relatórios militares do século XVII, únicos registros detalhados sobre Palmares, não citam Dandara. Pesquisadores como o sambista e estudioso Nei Lopes apontam inconsistências linguísticas no nome e ressaltam que a literatura banto não reconhece tal personagem. Mesmo assim, Dandara foi alçada ao panteão nacional, impulsionada por grupos que procuram referências femininas na história colonial.
Polêmica no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria
Em março de 2019, o Senado aprovou projeto da deputada Tia Eron (Republicanos-BA) para incluir Dandara e Luísa Mahin no Livro de Aço, que reúne personalidades como Tiradentes e Duque de Caxias. Foi a primeira vez que se aceitaram nomes sem comprovação histórica robusta. À época, parlamentares questionaram a decisão, alertando para o risco de consagrar personagens lendários ou imaginários.


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Agora, os novos achados fortalecem os críticos. Para eles, a inclusão atende a demandas ideológicas que relativizam o rigor historiográfico. O argumento é simples: a homenagem deveria se limitar a indivíduos cuja existência e feitos estejam documentados, evitando transformar ficção em verdade oficial.
Uso político e disputas de memória
Os autores do estudo destacam que recontar o passado é legítimo, mas alertam para a manipulação de narrativas em favor de agendas identitárias. Exemplo disso é a forma como parte do movimento feminista negro adotou Mahin e Dandara como ícones de luta contra racismo e machismo, mesmo sem base empírica.
Para observadores conservadores, esse fenômeno reflete o avanço de uma historiografia militante, preocupada menos com fatos e mais com construção simbólica. O resultado, afirmam, é a difusão de versões romanceadas que ganham status de realidade em livros escolares, produções culturais e até na legislação.
Consequências para o ensino e a cultura
A consolidação de mitos como verdades oficiais interfere diretamente no currículo escolar e nos projetos culturais financiados pelo Estado. Alunos podem ser expostos a conteúdos que apresentam Dandara e Luísa Mahin como figuras comprovadas, sem explicitar o caráter lendário ou ficcional. Críticos argumentam que isso distorce a compreensão do passado e desvaloriza personagens históricos cuja trajetória é documentada, como Antonieta de Barros ou Chiquinha Gonzaga.

Imagem: Alberto Henschel
Os defensores da inclusão alegam que lendas cumprem papel pedagógico e inspiram grupos historicamente marginalizados. Já os opositores entendem que inspiração não justifica a promoção de inverdades, sobretudo quando os fatos contradizem a narrativa propagada.
E agora?
O estudo da UFBA não possui força legal para retirar os nomes do Livro de Aço, mas lança luz sobre a necessidade de critérios objetivos na seleção de heróis nacionais. Deputados e senadores poderão retomar a discussão, caso a repercussão pressione por revisão.
Para historiadores alinhados à metodologia tradicional, o passo seguinte seria separar lenda de história no material didático e nas políticas públicas. Por outro lado, movimentos identitários devem reforçar a defesa das personagens, mantendo vivo o debate sobre representatividade feminina e negra.
O episódio expõe a tensão entre pesquisa acadêmica e militância, evidenciando como disputas ideológicas moldam a memória coletiva. Independentemente do desfecho, o caso demonstra que a construção de heróis exige cautela, documentação consistente e disposição para rever consensos à luz de novos dados.
Se você se interessa por temas envolvendo política e revisão de narrativas históricas, vale conferir outras análises em nossa editoria de Política, onde discutimos o impacto de decisões do Congresso na sociedade.
Em síntese, as conclusões da pesquisa da UFBA desafiam versões consagradas sobre Dandara e Luísa Mahin e recolocam o rigor histórico no centro do debate público. Acompanhe nossos próximos conteúdos e participe da discussão, compartilhando este artigo em suas redes sociais.
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